Mercado de trabalho formal · Novo CAGED / MTE

CLT em Movimento

Seis anos de empregos com carteira assinada no Brasil, do colapso da pandemia à desaceleração de 2025, e o que as projeções e o debate do fim da escala 6×1 sinalizam para o trabalho formal até 2027.

10.006.260
vínculos celetistas líquidos criados desde jan/2020
1.211.827
saldo acumulado nos últimos 12 meses
81%
das admissões são contratadas a 44h (universo da 6×1)
166.654
saldo projetado para jun/2027 (modelo Seasonal Naive)
Fonte: microdados do Novo CAGED (PDET/Ministério do Trabalho e Emprego) · Período Jan/2020–Mar/2026 · 27 UFs · Elaboração própria · 29/05/2026
Panorama

O retrato de hoje

O emprego formal brasileiro vive um momento de expansão em desaceleração: ainda cria vagas todos os meses, mas em ritmo menor que no auge da retomada pós-pandemia.

A recuperação foi real, mas perdeu fôlego. Entre Jan/2020–Mar/2026, o saldo acumulado somou 10.006.260 vínculos celetistas líquidos. Nos últimos 12 meses o país gerou 1.211.827 empregos formais, ante 1.554.585 nos 12 meses anteriores, uma variação de -22,0% que confirma a perda de tração em um cenário de juros elevados e crédito mais caro.

228.026
Saldo do último mês
Mar/2026
1.211.827
Saldo · 12 meses
admissões − desligamentos
24%
do saldo nacional
concentrado em São Paulo
0,69
Força da sazonalidade
padrão anual marcante (0–1)
Trajetória

A montanha-russa de seis anos

Da queda livre de 2020 à normalização recente: a série mensal conta a história econômica do país melhor que qualquer manchete.

Saldo mensal de empregos formais (CLT) no Brasil. Barras: saldo do mês (verde positivo, vermelho negativo). Linha sólida: média móvel de 12 meses. A linha pontilhada antes de 2020 é a tendência (MM12) do CAGED Antigo (2007–2019), com 35 meses de arquivos corrompidos do MTE preenchidos por interpolação. A linha tracejada marca a quebra metodológica de jan/2020 (declarações da Lei 4.923/65 → eSocial): as duas eras não são estritamente comparáveis. Fonte: CAGED Antigo e Novo CAGED/MTE.

Abr/2020 é o fundo do poço. No primeiro choque da pandemia, o país fechou -902.317 vagas formais em um único mês, o pior resultado da série. Seguiu-se uma recuperação em formato de “V”, com saldos recordes em 2021 e 2022 à medida que a economia reabria.

Desde então, a média móvel se acomodou em um platô positivo: o Brasil continua criando empregos, mas o ímpeto arrefeceu em 2024–2026. O padrão dente-de-serra que se repete todo ano não é ruído; é sazonalidade, e ela tem nome e sobrenome setorial, como veremos adiante.

Cada dezembro o Brasil demite; cada começo de ano, recontrata. O calendário do emprego é quase tão previsível quanto o das estações.
Geografia

Cinco Brasis no mesmo mapa

A geração de empregos formais é profundamente concentrada. O Sudeste responde por cerca de 41% do saldo recente, e São Paulo sozinho por 24%.

Saldo acumulado em 12 meses, por região. Soma móvel, leitura do estoque de vagas geradas no último ano em cada região.

Explore a série e a projeção de cada estado:

Saldo mensal e previsão até jun/2027 por UF (melhor modelo, IC 95%). Use o seletor no canto superior direito.
Sazonalidade

O calendário do emprego

O saldo médio por mês revela um relógio anual: o país contrata no primeiro semestre e nas safras, e demite em dezembro. O comércio e os serviços ditam o ritmo.

Saldo médio por mês do ano e UF. Verde = geração líquida típica; vermelho = perdas. A faixa vermelha de dezembro é universal.

Esse padrão é dominado por setores intensivos em mão de obra e contratos de jornada cheia, exatamente os que estão no centro do debate sobre a escala 6×1. É para ele que olhamos a seguir.

Projeção

Para onde vamos

Cinco modelos, SARIMA, ETS (Holt-Winters), Seasonal Naive, Random Forest e LightGBM, projetam a série até junho de 2027. O selecionado por validação foi o Seasonal Naive.

Brasil, histórico recente e previsões até jun/2027. Linha cheia: modelo selecionado; tracejadas: alternativos; faixa: intervalo de confiança de 95%.

A leitura central é de estabilidade sazonal, não de aceleração. Para jun/2027 o modelo projeta saldo de 166.654 vagas, com intervalo de 95% entre -200.211 e 533.519, amplitude que reflete a forte sazonalidade e a heterocedasticidade (variância instável) detectada na série.

⚠️ As projeções pressupõem o arcabouço atual. Uma mudança estrutural como o fim da escala 6×1 seria uma quebra que estes modelos, treinados no passado, não antecipam, e é por isso que ela merece um capítulo à parte.
Dossiê · Reforma da jornada

O fim da escala 6×1

A proposta de substituir a jornada 6×1 (seis dias de trabalho, um de descanso) por 5×2 mobiliza o Congresso e as ruas. O que os microdados do CAGED dizem sobre quem seria afetado, e o que esperar.

O que está em jogo. A escala 6×1 organiza a semana em seis jornadas de trabalho e uma de descanso, tipicamente somando as 44 horas semanais permitidas pela Constituição. A PEC do fim da 6×1 propõe limitar a semana a cinco dias (5×2) e reduzir a jornada, sem corte de salário. É a maior discussão sobre tempo de trabalho no país desde 1988.

Distribuição das admissões formais por jornada contratada (2020–2026). A barra destacada, 44h, é o universo típico da 6×1.
81%
das admissões a 44h
a jornada máxima legal, núcleo da 6×1
88%
a 40h ou mais
predomínio do contrato de jornada cheia

Os dados de contratação mostram que a jornada de 44 horas é a norma, não a exceção: cerca de 81% de todas as admissões formais desde 2020 foram pactuadas no teto constitucional. Reduzir a escala atinge, portanto, o contrato modal do mercado de trabalho brasileiro.

Mas a exposição é desigual entre setores. O mapa abaixo cruza quão dependente de jornada de 44h é cada setor (eixo horizontal) com quanto emprego ele gera (eixo vertical).

Mapa de exposição setorial à escala 6×1. Cada bolha é um setor (CNAE); horizontal: % das admissões a 44h; vertical: saldo de 12 meses; tamanho: volume de admissões. Linha tracejada: média nacional de 81% a 44h.

Os mais expostos são também grandes empregadores. Setores como Agropecuária, Construção, Comércio e reparação e Indústria de transformação combinam alta dependência da jornada de 44h com geração relevante de vagas. Os setores acima da média de exposição respondem por cerca de 64% das contratações formais recentes, ou seja, a reforma incide justamente sobre a engrenagem que mais contrata.

CNAESetor % a 44hSaldo 12mAdmissões 12m
AAgropecuária 96%-716 1.213.989
FConstrução 95%111.091 2.493.025
GComércio e reparação 90%226.533 6.214.111
CIndústria de transformação 89%75.465 3.680.512
HTransporte e armazenagem 87%94.338 1.454.659
EÁgua, esgoto e resíduos 87%14.168 161.557
LAtividades imobiliárias 85%5.585 93.904
IAlojamento e alimentação 84%82.647 1.684.840

O que esperar, à luz da evidência

Não há consenso, e o efeito final depende do desenho (corte de jornada, prazo de transição, compensações). Cruzamos os cenários mais discutidos com a literatura econômica revisada por pares (numerada ao final):

↑ Argumentos a favor

A produtividade por hora tende a subir quando se cortam jornadas longas: em dados empíricos o produto cresce menos que proporcionalmente às horas1,2, e escalas comprimidas elevam satisfação e atitudes no trabalho4. Há ainda ganho de saúde e sono ao reduzir jornadas extensas7,8.

↓ Riscos apontados

Eleva o custo da hora em setores intensivos em mão de obra (comércio, alimentação, serviços); empregadores tendem a reagir ajustando salário-base e jornada5. A experiência francesa das 35h não produziu efeito positivo robusto sobre o emprego3, sugerindo cautela quanto a ganhos automáticos de postos.

⟳ Ajuste provável

Reorganização de escalas, banco de horas, mais turnos parciais e contratações 5×2 a 40h4,6. O peso recairia sobre os setores do quadrante direito do mapa acima, os de maior exposição a 44h.

📊 Para o modelo

Uma transição alteraria o nível e a sazonalidade da série, uma quebra estrutural. As projeções deste relatório servem de linha de base (cenário “sem reforma”) contra a qual medir o efeito.

Evidência acadêmica

Referências localizadas pelo protocolo de busca científica paper-lookup (k-dense scientific-agent-skills) via OpenAlex, sem fabricação: cada item tem DOI verificável.

  1. Pencavel, J. (2014). The Productivity of Working Hours. The Economic Journal. · doi:10.1111/ecoj.12166
  2. Collewet, M.; Sauermann, J. (2017). Working hours and productivity. Labour Economics. · doi:10.1016/j.labeco.2017.03.006
  3. Chemin, M.; Wasmer, E. (2009). Using Alsace-Moselle Local Laws to Build a Difference-in-Differences Estimation Strategy of the Employment Effects of the 35-Hour Workweek Regulation in France. Journal of Labor Economics. · doi:10.1086/605426
  4. Baltes, B. B. et al. (1999). Flexible and compressed workweek schedules: A meta-analysis of their effects on work-related criteria. Journal of Applied Psychology. · doi:10.1037/0021-9010.84.4.496
  5. Trejo, S. J. (1991). The Effects of Overtime Pay Regulation on Worker Compensation. American Economic Review. · (sem DOI)
  6. Deakin, S.; Wilkinson, F. (1988). Working Time and Employment. The Economic Journal. · doi:10.2307/2233396
  7. Afonso, P.; Fonseca, M.; Pires, J. F. (2017). Impact of working hours on sleep and mental health. Occupational Medicine. · doi:10.1093/occmed/kqx054
  8. Harrington, J. M. (2001). Health effects of shift work and extended hours of work. Occupational and Environmental Medicine. · doi:10.1136/oem.58.1.68

Análise de natureza econômica e exploratória, baseada na composição das contratações formais. O CAGED registra horas contratadas, não o número de dias trabalhados; 44h é usado como proxy do universo 6×1. A evidência citada vem de contextos institucionais distintos do brasileiro e não deve ser lida como previsão do efeito da PEC, tampouco como aconselhamento.

Apêndice

Síntese por estado

Saldo recente, modelo selecionado, projeção para jun/2027 com intervalo de confiança e diagnósticos por UF. Clique nos cabeçalhos para ordenar.

UFEstado Saldo 12mModeloPrev. jun/27IC 95% Sazonal.Heter.
RORondônia 7.199SARIMA 984 -1.981 a 3.949 0,67 sim
ACAcre 4.289Seasonal Naive 605 -364 a 1.574 0,80 não
AMAmazonas 18.520SARIMA 3.735 -1.054 a 8.524 0,58 sim
RRRoraima 1.402Random Forest 226 -2.681 a 3.133 0,61 não
PAPará 30.876SARIMA 6.258 -1.308 a 13.825 0,85 sim
APAmapá 6.042LightGBM 1.123 -1.598 a 3.845 0,69 sim
TOTocantins 4.731Seasonal Naive 513 -1.368 a 2.394 0,84 sim
MAMaranhão 30.316Seasonal Naive 6.247 1.867 a 10.627 0,78 sim
PIPiauí 20.923Random Forest 2.746 -5.342 a 10.834 0,73 não
CECeará 55.335Seasonal Naive 7.320 -4.947 a 19.587 0,70 não
RNRio Grande do Norte 16.184Random Forest 2.278 -10.166 a 14.722 0,80 sim
PBParaíba 28.390SARIMA 2.434 -1.644 a 6.511 0,80 não
PEPernambuco 73.554Random Forest 6.316 -30.150 a 42.782 0,82 sim
ALAlagoas 16.347SARIMA 2.394 -3.286 a 8.075 0,86 sim
SESergipe 18.526Seasonal Naive 2.407 -485 a 5.299 0,82 sim
BABahia 87.732Random Forest 9.207 -40.334 a 58.749 0,52 sim
MGMinas Gerais 72.941SARIMA 28.572 -21.987 a 79.132 0,74 sim
ESEspírito Santo 18.230Seasonal Naive -3.348 -12.089 a 5.393 0,65 sim
RJRio de Janeiro 113.440Random Forest 12.776 -86.566 a 112.119 0,44 sim
SPSão Paulo 288.486SARIMA 49.375 -80.240 a 178.991 0,64 sim
PRParaná 75.469Seasonal Naive 9.377 -15.893 a 34.647 0,75 sim
SCSanta Catarina 52.795SARIMA 8.199 -18.353 a 34.751 0,68 sim
RSRio Grande do Sul 28.211Random Forest 584 -62.261 a 63.428 0,67 sim
MSMato Grosso do Sul 20.922Seasonal Naive 2.709 -2.372 a 7.790 0,84 sim
MTMato Grosso 27.718Seasonal Naive 9.388 1.939 a 16.837 0,96 sim
GOGoiás 43.169SARIMA 8.033 -8.038 a 24.103 0,77 sim
DFDistrito Federal 50.080SARIMA 5.833 -2.102 a 13.769 0,69 sim